Numa tarde de chuva, sendo
impossível brincar de bola ou corda no terreiro. Decidimos “forrar” as esteiras
na já “pequena” casa-grande - repleta de livros, nos sentamos para conversar e
contar histórias.
Demos início à viagem... Era
uma vez...
E na nossa grande roda,
sentados nas esteiras, assumem a leitura os protagonistas mirins, Edna (13
anos), Adriano (13 anos) e Ailton (10 anos) – todos participantes das
atividades do projeto Leitura no Ponto, no Ponto de Cultura Estrela de Ouro.
E deram continuidade a
leitura. Mas quiseram também estar ali, dentro do livro, não apenas mergulhados
na história, mas reinterpretando-a, retratados. Portanto, decidimos após a
leitura, elaborar um texto para contar a história e a identidade cultural
dessas crianças que também fazem a Cultura Viva no terreiro da Chã de Camará. E
três delas quiseram mostrar-se, espalhar suas histórias e suas culturas para
outros pontos, para o mundo.
“Aqui serão mostrados as histórias e desejos de personagens reais.
Retratos e vozes de crianças que se encontram, viram enredos, tornam-se samba e
invadem a alma com a vontade de serem observadas, vistas e ouvidas.
Aproxime-se, abra bem os olhos e, quanto aos ouvidos, deixe-os afinados, para
ouvir estas histórias em tom de samba” (Timóteo, 2010, MINC).
ANDERSON, UM JOVEM DE GRANDES MOMENTOS CULTURAIS
Por Anderson José
dos Santos, 15 anos
Meu nome é Anderson, nasci em
Timbaúba, Zona da Mata Norte de Pernambuco, no ano de 1995, no dia 29 de março,
e sonho em ser engenheiro da computação. Comecei a gostar de cultura popular
aos 09 anos, quando minha mãe foi morar no Sítio Chã de Camará – Aliança/PE. Eu
vi o Maracatu e dizia: “que coisa bonita!” ficava só na vontade de dançar nas
apresentações. Depois o Coco, ficava impressionado com o que eu via, as pessoas
dançavam e tocavam sem parar, com vontade de aprender a tocar mas não tinha
oportunidade.
Depois de um ano inauguraram o
Ponto de Cultura Estrela de Ouro, em 2005. Participei de todas as festas. Com o
Ponto de Cultura surgiram vários projetos para aprender a dançar e a tocar o Maracatu,
Coco e o Cavalo Marinho, eu participei de todos e aprendia a dançar e tocar
todos os brinquedos.
Em 2006 surgiu o projeto para
crianças e adolescentes, eu participei e participo até hoje. Com esse projeto
tive oportunidade de desenvolver mais a leitura com atividades na Biblioteca
Mestre Batista e o Estúdio Mestre Zé Duda.
Em 2007 teve o Festival
Canavial que tive oportunidade de conhecer diferentes culturas, danças,
comidas, histórias, maracatus e outros.
Em 2008 o projeto se
desenvolveu mais, entrou mais pessoas, Foi tendo mais Festas e Festivais.
2009 foi o ano que mais
aconteceram coisas, o Mestre Caboclo do Maracatu Estrela de Ouro me chamou para
dançar no maracatu, mas minha mãe não deixou. O nosso projeto ganhou um nome e
foi apoiado pelo governo, o nome era Leitura no Ponto e virou uma escolinha –
Escola Sebastiana Maria da Silva – ganhamos também o Ponto de Leitura, ganhamos
mil livros e um computador. O projeto cresceu, começou a ter merenda, salas
divididas, eram três professoras: Wanessa, Bárbara e Amélia. Com o grande
número de crianças, Cláudia e Layane foram colocadas para ser monitoras da
Biblioteca, e eu mais Pê (José Marcos) fomos colocados para sermos monitores do
computador. Isso foi uma oportunidade enorme para mim. Sabe, eu tive como
aprender a mexer mais no computador e passar o que eu estava aprendendo para
outras pessoas. Eu até hoje tenho feito isso, fico monitorando as crianças no
sábado e quando posso na semana, porque estudo. (Anderson faz o II ano do Ensino Médio na Escola Estadual Dom Bosco na
cidade de Aliança)
Ainda em 2009, disse à
professora que queria participar da Roda de Mestres (Roda de Mestres – Festival Canavial 2010, Nazaré da Mata – PE), e
ela e o Professor Biu Vicente me chamaram para comparecer. Roda de Mestres é
uma sala cheia de Mestres da cultura, e eles fazem uma roda e conversam várias
coisas importantes para as brincadeiras da região. Ganhei diploma, conheci o
grande escritor Célio Turino (Secretario
de Cidadania Cultural do Ministério da Cultura), que escreve vários livros
sobre Pontos de Cultura, ganhei um livro assinado por ele, o nome do livro é:
Pontos de Cultura: o Brasil de baixo para cima.
Um projeto foi lançado de uma
biblioteca móvel (Biblioteca itinerante –
projeto Caminhos do Canavial: leitura, cordel e tradições culturais da Zona da
Mata - MINC), colocamos todas as coisas no ônibus e levamos o ônibus para
vários lugares com sentido de mostrar para as pessoas que na Chã de Camará
têm-se projetos para crianças e que o Ponto de Cultura tem como identidade
também o projeto leitura no ponto.
Em 2010 o Mestre dos Caboclos
do Maracatu me chamou de novo para participar, e minha mãe dessa vez deixou. Eu
saí de caboclo de lança, foi muito bom, isso foi outra oportunidade para mim,
gostei muito, no próximo ano irei participar de novo.
Esse ano está sendo muito bom
para mim, estou tendo a chance de mostrar a minha história na internet (este texto foi publicado no
www.biuvicente.com), para todas as pessoas conhecerem e contar para outras
pessoas. Quero manter a cultura viva no lugar de Ederlan (Ederlan Fábio é responsável pela Produção Multimídia do Ponto de
Cultura Estrela de Ouro), com a computação e o Maracatu.
ADRIANO, EM
MIM NASCEU A CULTURA.
Por Adriano José dos
Santos, 13 anos
Meu nome é Adriano José dos
Santos, nasci em Aliança – PE, no dia 30 de setembro em um distrito de Aliança chamado
“COHAB”. Comecei a descobrir a cultura dentro de mim quando minha mãe veio
morar aqui no Sítio Chã de Camará, localizado no trevo de Upatininga, também
distrito de Aliança. Minha mãe, Ana Maria dos Santos, ela brincava de baiana no
Maracatu do Sítio, o Maracatu Estrela de Ouro. Maracatu muito conhecido no
Brasil todo.
Em 2006 surgiu o projeto de
leitura e aí entrei, e comecei a participar. Esse projeto era no sábado, por
isso corria muito, mas nem todo o sábado vinha, pois eu morava na COHAB e nem
sempre pude vim para o projeto. Mas nos sábados eu comecei a aprender a cultura
que havia dentro de mim.
Em 2009 o projeto evoluiu e
ganhou um nome, projeto Leitura no Ponto – Escola Sebastiana Maria da Silva. Eu
admirava muito a cultura daqui, o Maracatu - que era o mais bonito, o Cavalo
Marinho, o Boi Camará, a Ciranda Rosa de Ouro e o Coco Popular de Aliança. Como
eu era pequeno, tinha uns 09 anos, não deixavam eu ficar nas festas do Ponto.
Ainda em 2009 eu fiz um poema
chamado “Direitos garantidos para o mundo melhor”, e fui entrevistado na Escola
(Adriano cursa o 9º fundamental na Escola
Estadual Dom Bosco em Aliança – PE; foi entrevistado pela jornalista Inês
Calado do JC – Online para a matéria especial “E o verbo se fez Vida”,
disponível no endereço: http://www2.uol.com.br/JC/sites/verbo/index.html)
e fiquei conhecido como “o poeta” em toda a Escola.
Já em 2010 eu fui chamado para
brincar de Arreimá no Maracatu Estrela de Ouro, mas eu ainda era muito pequeno,
daí não deu certo. Tentei brincar de caboclo, brinquei no carnaval em 02
apresentações, na terceira mudei para o lampião e gostei. Estarei no próximo
carnaval se Deus quiser. E agora o meu Tio está fazendo um Coco de jovens, e
estou muito empolgado com a cultura e sonho quando crescer ser um grande cantador de marchas de
Maracatu.
NOSSO PONTO, NOSSA CULTURA
Sou Ivoneide Maria da Costa,
tenho 14 anos, nascida em Aliança, criada no Sitio Chã de Camará. Minha Mãe é
Ivonete Lopes da Silva, uma mulher lutadora; Meu Pai é José Rodrigo da Costa,
um homem trabalhador.
Tive uma infância muito
alegre, e ao mesmo tempo triste. Com 12 anos comecei a freqüentar o Ponto de
Cultura Estrela de Ouro, em 2005 inauguramos nossa primeira Biblioteca, chamada
Mestre Batista. A gente tem aula todo sábado, é muito legal, as professoras
são: Wanessa, Bárbara, Amélia, e agora Érica.
Hoje em dia temos
computadores, a Biblioteca com muitos livros novos; temos aulas de músicas com
os Mestres da cultura e o Ponto está crescendo cada vez mais.
Fonte: texto postado por Wanessa Santos, coordenadora pedagógica da Biblioteca Mestre Batista e do Ponto de Cultura Estrela de Ouro.
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