Não faz muito tempo que as
Bibliotecas ainda eram espaços de apreciação e utilização para poucos,
resumia-se às ordens religiosas, centros acadêmicos e casas da elite social.
Tinha como fundamento o enriquecimento cultural erudito dessa elite e também colecionador,
com caráter imediatista e utilitário, com função de arquivo para armazenagem de
livros.
Na sua evolução histórica, as
Bibliotecas, sofrem uma mudança qualitativa e chamam a si parte da
responsabilidade na construção da identidade e da memória coletiva. São
reconhecidas enquanto patrimônios, seu significado e responsabilidade, do ponto
de vista histórico e cultural. Percebe-se que os livros, a sua utilização e
fins, podem desempenhar uma missão que ultrapassa as paredes da própria
biblioteca.
Os patrimônios bibliográficos ou
Bibliotecas patrimoniais atuam como elemento construtor da identidade coletiva
no meio em que estão inseridas. Tem sua relevância cultural, não apenas pelo
seu acervo, que trazem características intrínsecas – físicas e imateriais - do
espaço local; mas a forma como é encarado, a sua representação e leitura.
Em 2005, a Biblioteca Mestre Batista, tornou-se parte da comunidade de Chã de
Camará – área rural do município de Aliança/PE – patrimônio bibliográfico desse
lugar; atuando na construção da identidade local e no desenvolvimento cultural para
cidade e região da Zona da Mata Norte Pernambucana. Nasceu como prioridade
entre as necessidades da população local, após a implementação do Ponto de
Cultura Estrela de Ouro de Aliança
no ano de 2004 (pelo programa Cultura Viva do Ministério da Cultura). Por ser
um espaço de difusão e de perpetuação do conhecimento, a Biblioteca Mestre
Batista foi nomeada em homenagem a Severino Lourenço da Silva – o grande Mestre
Batista – que durante décadas desempenhou o seu papel ensinando diversos
Mestres e brincantes da região.
Desde 1960, o Mestre Batista, fez das atividades cotidianas no Sítio
Chã de Camará uma tradição, criando e recriando com a comunidade local o
imaginário popular e os folguedos e brinquedos que caracterizam a região. Criou
o Maracatu Estrela de Ouro e o Cavalo Marinho Mestre Batista, onde ensinou até
os últimos dias de vida a grandes Mestres da Cultura popular entre eles o
Mestre João Salustiano e seu filho Manoel Salustiano – mais conhecido como
Mestre Salú. Mestre Batista foi
reconhecido e admirado por muitos, fazendo do Sítio Chã de Camará um patrimônio
histórico, artístico e cultural.
Durante esses seis anos, desde a inauguração da Biblioteca Mestre
Batista, foram vários trabalhos realizados no local com a Equipe pedagógica do
Ponto de Cultura Estrela de Ouro e a comunidade. Primeiramente ações de
capacitação pela Biblioteconomista Andréa Batista para organização do pequeno
acervo (inicialmente cerca de 800 livros apenas) com os jovens da comunidade
que cuidaram do espaço. Seguindo as atividades de empréstimos de livros, rodas
de leituras e dinâmicas. Numa parceria com a Universidade de Pernambuco alguns
jovens Educadores, sob a Coordenação pedagógica de Severino Vicente da Silva,
estruturam e realizaram atividades pedagógicas atendendo ao pedido da
comunidade para o desenvolvimento educacional, com aulas de alfabetização de
jovens e adultos, capacitação para o exame supletivo e de mediação de leitura
para crianças. Alguns desses Educadores permaneceram no Ponto de Cultura
Estrela de Ouro, integrando a Equipe pedagógica, e deram continuidade às atividades de formação
de leitores e mediação de leitura na Biblioteca Mestre Batista, tornando esse
espaço sempre vivo, latente.
A Biblioteca Mestre Batista se tornou o espaço mais frequentado do
Ponto de Cultura Estrela de Ouro, criador de novas culturas – a leitura. Mas
foi necessário fazer a comunidade sentir-se parte deste espaço, tê-lo enquanto
patrimônio de todos; pois, é impossível estimar e preservar aquilo que
desconhecemos ou aquilo pelo qual só temos um vago conhecimento. Fez-se
despertar o interesse pela leitura, o reconhecimento de sua importância, numa
população que em sua maioria não são alfabetizados. Inicialmente poucos
leitores tomavam empréstimo de algumas obras, depois as crianças descobriram os
livros como instrumento de lazer e brincadeira – rindo e soletrando as
literaturas infantis, e por curiosidade alguns jovens canavieiros adentram o
espaço da Biblioteca, posicionam-se diante das extensas prateleiras e folheiam
os livros, decodificando as primeiras letras.
Em 2008, em reconhecimento da sua importância e relevância das
atividades de leitura desenvolvidas, a Biblioteca Mestre Batista tornou-se
também um Ponto de História – para
realizar debates e discussões a cerca de temas da história local e do Brasil –
e em 2009 torna-se ainda, Ponto de
Leitura, ambos pela Biblioteca Nacional e o MinC. Aumentando ainda mais a
qualidade e o quantitativo de seu acervo, que atualmente está em 2.500 números
de volumes (entre 1600 livros e 900 periódicos – revistas, gibis, materiais
audiovisuais e outros).
Com o projeto BIBLIOTECA MESTRE BATISTA aprovado pelo fundo de
incentivo a cultura – Funcultura/FUNDARPE 2009 foi possível estruturar e
organizar a Biblioteca Mestre Batista, enquanto patrimônio bibliográfico do
local; e ainda proporcionar capacitação e formação para a Equipe pedagógica, os
jovens agentes culturais do local e a comunidade que usufrui deste
instrumento. Foram 08 meses de trabalho
com algumas oficinas: Acervo e Memória,
com Andréa Batista; Educação patrimonial,
com Clarisse Fraga; e Mediação de Leitura
e Contação de História, com Wanessa Santos e Andréa Batista.
Através de uma pesquisa empírica sobre os patrimônios imateriais da
comunidade – Mestres e manifestações culturais – foi elaborado textos que
possibilitam a preservação e perpetuação da história e cultura; e ainda a
recuperação e organização de todos os seus registros (publicações, matérias de
jornais, fotografias, vídeos, aúdios, e etc.), sendo agora tudo disponibilizado
para o público no acervo da Biblioteca.
Todo o acervo bibliográfico apresenta-se de forma organizada
(registrado, tombado, catalogado e classificado) num sistema universal (CDU
para os livros e KARDEX para os periódicos) de fácil compreensão para seus
visitantes, além de estar tudo informatizado; inserido também num sistema virtual
(bibilivre) que facilita a pesquisa de qualquer obra no acervo, proporcionando
também a difusão, pois pode ser acessado por todos através da internet.
Com capacitação em mediação de leitura e contação de histórias, os
profissionais atuantes na equipe pedagógica, pôde dar continuidade, de forma
melhor estruturada, ao trabalho de formação de leitores desenvolvido com as
crianças e adolescentes da comunidade nas oficinas de leitura que acontecem
semanalmente no local. São 40 participantes, entre 04 e 16 anos de idade, que
descobrem nos livros e nas histórias outros mundos, o prazer da leitura e
perspectivas de um futuro diferente da realidade local. Por semana, o número
total de empréstimos de livros ultrapassa os 70 volumes, sendo mais de livros
infantil e juvenil, além de literaturas clássicas brasileiras.
Hoje, o espaço
reservado inicialmente para a Biblioteca tornou-se pequeno, e os livros toma
conta da maior parte do antigo Casarão que é sede do Ponto de Cultura Estrela
de Ouro. Entre os adornos do Maracatu que enfeitam a casa, já é comum ver
também estantes e livros. As atividades de mediação de leitura e contação de
histórias já não conseguem ser realizadas num único espaço, invadem toda a sede
e o terreiro do Sítio Chã de Camará. São realizações que se unem para
reconhecer e permanecer vivo o espaço da Biblioteca Mestre Batista enquanto
construtor do conhecimento e da identidade cultural de Aliança/PE; como
patrimônio desse município e do Estado de Pernambuco.
Equipe do projeto BIBLIOTECA MESTRE BATISTA
Coordenador Geral: José Lourenço da Silva
Coordenador pedagógico: Severino Vicente da Silva
Produtor: Afonso Oliveira
Assistentes pedagógicos: Amélia Patrícia da Silva, Bárbara Gonçalves,
Wanessa Santos, Philippe Wollney, Jacilene Souza
Formadores: Andréa Batista – Acervo e Memória; Clarisse Fraga –
Educação patrimonial; Wanessa Santos – Mediação de leitura; Andréa Batista –
Contação de histórias.
Fonte: texto postado por Wanessa Santos, atual coordenadora pedagógica do Ponto de Cultura Estrela de Ouro e da Biblioteca Mestre Batista; fotos: Ederlan Fabio, coordenador de audiovisual do Ponto de Cultura Estrela de Ouro e Severino Vicente da Silva, Professor Doutor em História pela UFPE.
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