| Amélia Patrícia, assistente pedagógica da Biblioteca Mestre Batista, em atividade com o grupo 3. |
2013 foi um ano desafiador. Há quase dez anos trabalhando com alfabetização de crianças menores de 10 anos ou com adultos no seguimento educacional da EJA, recebi a notícia de que iria mediar as atividades com o grupo 3 da Biblioteca Mestre Batista. Este grupo era composto por cerca de 10 adolescentes entre 12 e 16 anos. Uma turma que tive pouco contato durante os anos que colaboro com aquele espaço. Saí da minha zona de conforto e comecei a me preparar para estar com eles todos os sábados.
Inicialmente decidimos,
juntamente com a coordenação do projeto “Leitura, Memória e Cidadania”, que
realizaríamos oficinas de cavalo Marinho para esse grupo. Seguimos com a
atividade por alguns meses. A
dificuldade era imensa, eu sabia do valor daquilo que ensinava, da importância
que tinha para a memória local, para a conservação de um patrimônio e para
manter vivo o folguedo que representa a nossa cidade. Pois é naqueles jovens e
crianças que a semente deve ser lançada. Mas, como despertar o interesse daqueles jovens para tudo isso que vivi e
aprendi?
Essa árdua
tarefa, ora pela insegurança, ora pela dificuldade, forçou-me a buscar mais.
Pedi ajuda ao Mestre Luiz Caboclo (Mateus do Cavalo Marinho Mestre Batista),
busquei vídeos, informações com outros integrantes do Ponto de Cultura,
como Ederlan Fabio e Biu do Coco, e me
preparei para a realização das mesmas. Entre questionamentos como “Vamos dançar
funk?”... “Por que não dançamos Anita?” Fomos incentivando e apresentando
argumentos para mostrar quão grande era aquela ação. Não eram apenas oficinas
de Cavalo Marinho. Era a tentativa de perpetuar um marco da cultura popular de
Aliança.
Após o mês de
junho, nossa coordenadora Wanessa Santos realizou em suas visitas, algumas
conversas informais com alguns pais dos jovens que participavam das ações. Ela, através da observação e dos relatos,
percebeu a necessidade de discussões e esclarecimentos sobre o comportamento
adolescente, orientação sexual e sexualidade, considerando que ali tínhamos
jovens em situações de risco. Sendo assim, nossas ações mudaram mais uma vez. A
necessidade agora era outra: orientar, dar espaço as discussões e dúvidas de
uma fase de tantas mudanças e conflitos, uma vez que as famílias não possuíam
ou não tinham estrutura ou conhecimento para tratar sobre o assunto. Na sociedade
que fomos criados falar sobre sexo dentro de casa parece ser algo errado ou
marginal. Isso prejudica e expõe nossos adolescentes a informações muitas vezes
distorcidas.
Nós, por
necessidade deles, mudamos o curso. Eu, enquanto mediadora, parei mais uma vez
e me preparei para uma nova fase. Tentando buscar atividades que cativassem
aqueles jovens, que provocassem nele o desejo de estar ali, usei recursos
diversos, como vídeos, relatos de outros adolescentes, filmes, textos,
dinâmicas e conhecimentos científicos para tratar da temática com leveza, mas
também de maneira simples. Abordar o assunto parecia ser mais um desafio, mas
me espantei com o resultado: eles queriam, pediam mais, sugeriam temas.
Fomos criando
laços, acredito que a confiança se instalava no grupo, talvez mostrar-me atenta
às suas dúvidas fosse aquilo que faltava para estabelecer dentro do grupo uma
maior aceitação. Um dia, depois de uma atividade de relaxamento, que eles
apreciaram, ouvi aplausos. Assim como um artista que sobe no palco e espera no
fim de seu espetáculo aquele som espontâneo, recebi aqueles aplausos e
sorrisos. Vi e concretizei ali que consegui atingir um objetivo maior que
orientá-los sobre temas que circundam a vida adolescente. Consegui me sentir
bem entre eles, consegui desvendar aqueles olhares, entender suas dúvidas e
compreender que o que eles queriam apenas era SEREM OUVIDOS, como qualquer
outro jovem que grita na multidão: SOU ÚNICO! TENHO OPINIÃO!
No último mês
do ano, encerramos as nossas atividades. O que virá em 2014? Não sei, não
sabemos, mas que seja mais um desafio, que nos provoque e promova a reflexão
das nossas ações. De 2013 levo a experiência da descoberta.
Fontes: texto postado por Amélia Patrícia, assistente pedagógica da Biblioteca Mestre Batista.
Fontes: texto postado por Amélia Patrícia, assistente pedagógica da Biblioteca Mestre Batista.
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