terça-feira, 31 de dezembro de 2013

ENCANTAMENTOS, DESCOBERTAS E DESAFIOS EM UM GRUPO DE ADOLESCENTES – RELATOS DE UMA EXPERIÊNCIA.

Amélia Patrícia, assistente pedagógica da Biblioteca Mestre Batista, em atividade com o grupo 3.

2013 foi um ano desafiador. Há quase dez anos trabalhando com alfabetização de crianças menores de 10 anos ou com adultos no seguimento educacional da EJA, recebi a notícia de que iria mediar as atividades com o grupo 3 da Biblioteca Mestre Batista. Este grupo era composto por cerca de 10 adolescentes entre 12 e 16 anos. Uma turma que tive pouco contato durante os anos que colaboro com aquele espaço. Saí da minha zona de conforto e comecei a me preparar para estar com eles todos os sábados.

Inicialmente decidimos, juntamente com a coordenação do projeto “Leitura, Memória e Cidadania”, que realizaríamos oficinas de cavalo Marinho para esse grupo. Seguimos com a atividade por alguns meses.  A dificuldade era imensa, eu sabia do valor daquilo que ensinava, da importância que tinha para a memória local, para a conservação de um patrimônio e para manter vivo o folguedo que representa a nossa cidade. Pois é naqueles jovens e crianças que a semente deve ser lançada. Mas, como despertar o interesse  daqueles jovens para tudo isso que vivi e aprendi?

Essa árdua tarefa, ora pela insegurança, ora pela dificuldade, forçou-me a buscar mais. Pedi ajuda ao Mestre Luiz Caboclo (Mateus do Cavalo Marinho Mestre Batista), busquei vídeos, informações com outros integrantes do Ponto de Cultura, como  Ederlan Fabio e Biu do Coco, e me preparei para a realização das mesmas. Entre questionamentos como “Vamos dançar funk?”... “Por que não dançamos Anita?” Fomos incentivando e apresentando argumentos para mostrar quão grande era aquela ação. Não eram apenas oficinas de Cavalo Marinho. Era a tentativa de perpetuar um marco da cultura popular de Aliança. 

Ederlan Fabio, integrante do Ponto de Cultura Estrela de Ouro, que tem também grande importância nesse movimento que vem acontecendo nos últimos tempos naquele espaço, foi um grande divisor de águas nessas ações do primeiro semestre, ensinando a mim e aos jovens um pouco daquilo que sabe na brincadeira. Após uma tarde de muita conversa com aqueles jovens eles perceberam como era possível ser, crescer e desenvolver atividades que estivessem estreitamente relacionadas às brincadeiras que acontecem no Sítio Chã do Camará.  Ederlan e eu somos frutos de sementes plantadas em um dos projetos realizados pelo Maracatu Estrela de Ouro, o Agente Jovem de Cultura Viva, mediado na época pelo professor Severino Vicente, que com certeza também vivenciou essa dificuldade que tive nos primeiros meses de atividades com o grupo 3. 

Continuei meus trabalhos, segui com a oficina e tentando me descobrir entre aqueles olhares enigmáticos, tentava desvendar o que pensavam ou sentiam sobre as atividades e sobre mim. Coordenar grupo de jovens não era a minha habilidade. Mas, segui durante o primeiro semestre com a oficina de Cavalo Marinho. 

Após o mês de junho, nossa coordenadora Wanessa Santos realizou em suas visitas, algumas conversas informais com alguns pais dos jovens que participavam das ações.  Ela, através da observação e dos relatos, percebeu a necessidade de discussões e esclarecimentos sobre o comportamento adolescente, orientação sexual e sexualidade, considerando que ali tínhamos jovens em situações de risco. Sendo assim, nossas ações mudaram mais uma vez. A necessidade agora era outra: orientar, dar espaço as discussões e dúvidas de uma fase de tantas mudanças e conflitos, uma vez que as famílias não possuíam ou não tinham estrutura ou conhecimento para tratar sobre o assunto. Na sociedade que fomos criados falar sobre sexo dentro de casa parece ser algo errado ou marginal. Isso prejudica e expõe nossos adolescentes a informações muitas vezes distorcidas.

Nós, por necessidade deles, mudamos o curso. Eu, enquanto mediadora, parei mais uma vez e me preparei para uma nova fase. Tentando buscar atividades que cativassem aqueles jovens, que provocassem nele o desejo de estar ali, usei recursos diversos, como vídeos, relatos de outros adolescentes, filmes, textos, dinâmicas e conhecimentos científicos para tratar da temática com leveza, mas também de maneira simples. Abordar o assunto parecia ser mais um desafio, mas me espantei com o resultado: eles queriam, pediam mais, sugeriam temas.

Vi ali um encantamento, daqueles que via quando contava histórias para os pequenos. Fomos, eles e eu, nos situando diante da nova etapa, percebi como era importante etapas como: a sensibilização sobre o assunto, a dinâmica e a discussão para fechamento. Nessa medida conduzimos nossos encontros. A cada sábado um novo assunto, novas perguntas, novos sorrisos, um abraço aqui ou acolá.

Fomos criando laços, acredito que a confiança se instalava no grupo, talvez mostrar-me atenta às suas dúvidas fosse aquilo que faltava para estabelecer dentro do grupo uma maior aceitação. Um dia, depois de uma atividade de relaxamento, que eles apreciaram, ouvi aplausos. Assim como um artista que sobe no palco e espera no fim de seu espetáculo aquele som espontâneo, recebi aqueles aplausos e sorrisos. Vi e concretizei ali que consegui atingir um objetivo maior que orientá-los sobre temas que circundam a vida adolescente. Consegui me sentir bem entre eles, consegui desvendar aqueles olhares, entender suas dúvidas e compreender que o que eles queriam apenas era SEREM OUVIDOS, como qualquer outro jovem que grita na multidão: SOU ÚNICO! TENHO OPINIÃO!

No último mês do ano, encerramos as nossas atividades. O que virá em 2014? Não sei, não sabemos, mas que seja mais um desafio, que nos provoque e promova a reflexão das nossas ações. De 2013 levo a experiência da descoberta.


Fontes: texto postado por Amélia Patrícia, assistente pedagógica da Biblioteca Mestre Batista.



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